Ensinar a Partir do Contexto: Ancestralidade, Interdisciplinaridade e Aprendizagem Significativa

Educação contextualizada em projeto interdisciplinar de Educação Ambiental “Água! O Planeta Terra Pede Socorro”, realizado em Mirassol-SP, em 2004, com investigação da ancestralidade dos alunos da comunidade escolar.

Ensinar a Partir do Contexto: Ancestralidade, Interdisciplinaridade e Aprendizagem Significativa

Este artigo apresenta uma experiência pedagógica realizada em 2004, em Mirassol-SP, que evidencia como a educação contextualizada, a ancestralidade e a interdisciplinaridade fortalecem a aprendizagem significativa, integrando escola, família e cultura na construção de novos conhecimentos.

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Introdução

A construção de práticas pedagógicas significativas pressupõe a articulação entre contexto sociocultural, interdisciplinaridade e participação ativa dos estudantes. Nesse sentido, a educação contextualizada constitui fundamento essencial para que a aprendizagem se conecte à realidade vivida pelos alunos. Muito antes da consolidação normativa trazida pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), experiências docentes já evidenciavam que o conhecimento escolar ganha sentido quando dialoga com a cultura, a história e a ancestralidade da comunidade.

Essa perspectiva aproxima-se do pensamento de Edgar Morin, ao defender uma educação capaz de religar saberes, superar fragmentações e compreender a complexidade do ser humano em suas dimensões culturais, históricas e sociais (MORIN, 2000). Ensinar, portanto, exige situar o conhecimento no contexto vivido, reconhecendo a interdependência entre indivíduo, sociedade e cultura.

Este artigo apresenta uma experiência pedagógica desenvolvida durante o ano letivo de 2004, no município de Mirassol-SP, no âmbito do Projeto de Intervenção Local (PIL) “Água! O Planeta Terra Pede Socorro”, escrito e implementado integralmente pela autora, fundamentada na pesquisa investigativa, no reconhecimento da ancestralidade dos estudantes e na integração entre áreas do conhecimento.

Contexto da Experiência Pedagógica

Tal prática no Ano de 2004 evidenciou que a educação contextualizada, articulada à investigação cultural e ambiental, fortalece a aprendizagem significativa ao integrar escola, família e comunidade na construção de novos conhecimentos.

Nos últimos dias de janeiro de 2006, a autora foi uma das poucas professoras do interior do Estado de São Paulo selecionadas pelo Ministério da Educação para participar de um processo formativo com duração de um ano letivo, voltado ao estudo aprofundado da história e cultura afro-brasileira, em consonância com a Lei nº 10.639/2003.A proposta previa que os conhecimentos estudados fossem trabalhados no dia seguinte em sala de aula, tendo os próprios estudantes como protagonistas da construção de materiais pedagógicos destinados a subsidiar outros professores da Rede Municipal de Educação. Tal experiência consolidou, em âmbito formativo e institucional, princípios pedagógicos que já vinham sendo vivenciados na prática investigativa desenvolvida anteriormente, com a mesma comunidade escolar.

Como desdobramento desse percurso formativo, o Projeto de Intervenção Local (PIL), elaborado pela autora e intitulado Material Didático para Professores: “Educar com e para a Diversidade Através das Artes Visuais“, foi encaminhado à instituição formadora em novembro de 2006, com imagens documentando o trabalho. Na mesma ocasião, uma cópia foi entregue à Secretária Municipal de Educação da época, já acompanhada da indicação de editoras e gráficas para a confecção dos livros destinados aos demais professores da Rede Municipal de Educação, com custo reduzido para os cofres públicos. A iniciativa evidenciou a articulação entre formação docente, produção de material pedagógico e compromisso com a democratização do acesso ao conhecimento.

Educação contextualizada e aprendizagem significativa

A aprendizagem torna-se efetiva quando novos conhecimentos se relacionam com saberes prévios dos estudantes. Essa perspectiva é central na teoria da aprendizagem significativa, segundo a qual o fator mais importante para aprender é aquilo que o aluno já sabe, devendo o ensino partir dessas referências (AUSUBEL, 2003).

Nessa direção, Paulo Freire afirma que o processo educativo precisa considerar a leitura do mundo realizada pelo educando, compreendendo o conhecimento como construção histórica, crítica e libertadora (FREIRE, 1996). Assim, reconhecer a ancestralidade indígena, africana e europeia presente na comunidade escolar aproxima o currículo da realidade sociocultural dos estudantes e favorece vínculos cognitivos e afetivos com o conhecimento.

Interdisciplinaridade, didática e planejamento contextualizado

A fragmentação disciplinar limita a compreensão da realidade complexa em que os sujeitos estão inseridos. A interdisciplinaridade constitui atitude investigativa que integra saberes e amplia a leitura do mundo (FAZENDA, 2011).

No campo da didática, Libâneo (1994) e Vasconcellos (2000) destacam que o planejamento pedagógico precisa ser contextualizado, superando a mera transmissão de conteúdos para tornar o ensino efetivo e socialmente significativo. Corinta Geraldi (1998), ao defender a ideia de “Escola Viva”, reforça a necessidade de reflexão sobre o trabalho docente situado no contexto concreto de cada instituição escolar.

Na experiência desenvolvida no ano de 2004, o trabalho pedagógico articulou as áreas de:

Linguagens
Matemática
Ciências da Natureza
Ciências Humanas

A pesquisa realizada pelos próprios alunos possibilitou identificar a origem étnico-cultural da comunidade escolar, transformando o processo educativo em construção coletiva de conhecimento e fortalecendo o protagonismo estudantil.

Cultura, mediação e investigação intergeracional

Durante a primeira fase da pesquisa investigativa realizada com todos os alunos da escola, um pequeno grupo, aproximadamente dez estudantes, incluindo um de minha sala de aula e os demais pertencentes tanto ao período da manhã quanto ao período da tarde, apresentou como resposta apenas a identificação de que suas famílias eram “baianas”, afirmando que seus antepassados eram provenientes do estado da Bahia.

Esse dado revelou a necessidade de explicitar, em uma das primeiras reuniões de pais e mestres do ano de 2004, que não existem “baianos” como referência de ancestralidade, mas sujeitos cujas origens históricas, culturais e étnicas antecedem a própria formação do estado brasileiro.

A partir dessa reflexão, os próprios pais passaram a buscar informações junto a parentes mais velhos, procurando compreender aspectos de sua ancestralidade que, até então, desconheciam. Tal movimento não se restringiu a esse pequeno grupo inicial: a grande maioria das famílias engajou-se no processo investigativo, ampliando a pesquisa sobre suas origens étnico-culturais.

Pais e familiares dialogaram com pessoas mais velhas de seus núcleos familiares, buscando identificar:

  • o nome das etnias ou povos de origem;
  • os estados brasileiros relacionados às trajetórias familiares;
  • memórias culturais preservadas ao longo das gerações.

Em muitos casos, devido à ausência de meios de comunicação imediatos, familiares escreveram cartas para parentes distantes.
Quando as respostas chegavam, eram encaminhadas à escola e compartilhadas com a turma, ampliando a investigação coletiva sobre as origens de cada estudante.

Esse movimento expandiu a aprendizagem para o campo da memória coletiva, da identidade cultural e do pertencimento, aproximando escola e comunidade em uma perspectiva coerente com a compreensão de que o conhecimento se constrói nas interações sociais e culturais (VYGOTSKY, 1998) e na leitura crítica da realidade vivida pelos sujeitos (FREIRE, 1996).

Assim, a experiência configurou-se como processo formativo intergeracional, no qual estudantes, famílias e comunidade tornaram-se participantes ativos na construção de novos conhecimentos.

Ensino contextualizado nas Ciências, Geografia e Educação do Campo

Autores do ensino de Ciências e Geografia, como Cavalcanti (2002), indicam a importância de trabalhos investigativos e do estudo do espaço vivido para superar a separação entre teoria e prática, integrando fenômenos sociais e naturais.

No âmbito da Educação do Campo, a proposta de educação contextualizada busca valorizar o conhecimento local, a cultura e as formas de vida das comunidades, promovendo aprendizagem situada e socialmente significativa (REIS, 2004).

Essas perspectivas dialogam diretamente com a experiência pedagógica realizada em 2004, na qual a investigação da ancestralidade dos estudantes constituiu eixo articulador do currículo.

Resultados pedagógicos da experiência

O projeto interdisciplinar e contextualizado “Água! O Planeta Terra Pede Socorro”, desenvolvido ao longo de um ano letivo, escrito, implementado e avaliado sistematicamente pela autora, possibilitou:

• Aprendizagem com significado cultural;
• Fortalecimento do pertencimento identitário;
• Integração efetiva entre áreas do conhecimento;
• Alcance de resultados além das expectativas pedagógicas iniciais.

Os resultados confirmam que o trabalho pedagógico contextualizado favorece a aprendizagem, conforme sustentam diferentes correntes teóricas da educação.

Tal compreensão aproxima-se da perspectiva da complexidade proposta por Edgar Morin (2000), ao afirmar a necessidade de uma educação que religue saberes, reconheça identidades culturais e situe o conhecimento no contexto da vida real. Nessa direção, a aprendizagem significativa não se reduz à assimilação de conteúdos, mas constitui processo de formação humana integral, no qual conhecimento, cultura, memória e pertencimento se entrelaçam na construção de sentidos para a existência.

Projeto de educação ambiental interdisciplinar e contextualizada “Água! O Planeta Terra Pede Socorro”, realizado em Mirassol-SP, em 2004, com atividades pedagógicas e gráficos de ancestralidade dos alunos da comunidade escolar.
Figura – Projeto de educação ambiental interdisciplinar e contextualizada “Água! O Planeta Terra Pede Socorro”, desenvolvido em Mirassol-SP, no ano de 2004, com registro das atividades pedagógicas e gráfico de ancestralidade da comunidade escolar.
Fonte: acervo pessoal da autora.

Considerações finais

A experiência apresentada demonstra que práticas fundamentadas em contexto, cultura, investigação e interdisciplinaridade já produziam aprendizagens profundas antes mesmo das diretrizes atuais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Valorizar a ancestralidade dos estudantes, integrar áreas do conhecimento e promover a participação das famílias no processo investigativo constituem não apenas estratégias didáticas, mas um compromisso ético com uma educação crítica, situada e humanizadora.

No percurso histórico da experiência relatada, destaca-se ainda sua consonância com os marcos legais da educação brasileira. A Lei nº 10.639/2003 instituiu a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira, fundamento que dialoga diretamente com o processo formativo vivenciado pela autora a partir de 2006. Posteriormente, a Lei nº 11.645/2008 ampliou essa determinação ao incluir também a história e cultura indígena, confirmando, em âmbito normativo, a relevância de práticas pedagógicas contextualizadas que reconhecem a diversidade cultural e a ancestralidade dos estudantes. Tais avanços evidenciam que experiências educativas enraizadas na realidade sociocultural podem anteceder e inspirar transformações nas políticas públicas educacionais.

Essa perspectiva dialoga com o pensamento de Edgar Morin (2000), ao defender a necessidade de uma educação capaz de articular os saberes, reconhecer a complexidade da condição humana e situar o conhecimento no contexto da vida real. Os sete saberes necessários à educação do futuro reforçam a importância de superar fragmentações, promover a compreensão humana e formar sujeitos capazes de pensar de modo integrado, crítico e solidário.

Ensinar com sentido é, portanto, trabalhar a partir do contexto vivenciado com os alunos e, sobretudo, com amor envolvido em tudo o que se faz, na busca permanente por um conhecimento mais significativo, construído por cada estudante com a mediação do professor.

Prof.ª Roseli Maria Cuzzo Cury
Educadora, pesquisadora e fundadora da COL Cursos Online

Referências

AUSUBEL, David P. Aquisição e retenção de conhecimentos: uma perspectiva cognitiva. Lisboa: Plátano, 2003.

CAVALCANTI, Lana de Souza. Geografia, escola e construção de conhecimentos. Campinas: Papirus, 2002.

FAZENDA, Ivani Catarina Arantes. Interdisciplinaridade: história, teoria e pesquisa. 18. ed. Campinas: Papirus, 2011.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

GERALDI, Corinta Maria Grisolia. Escola viva: elementos para a construção de uma prática pedagógica transformadora. Campinas: Mercado de Letras, 1998.

LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez, 1994.

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 2. ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2000.

REIS, Edmerson dos Santos. Educação contextualizada: fundamentos e práticas. Juazeiro: UNEB, 2004.

VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Planejamento: projeto de ensino-aprendizagem e projeto político-pedagógico. São Paulo: Libertad, 2000.

VYGOTSKY, Lev Semionovich. A formação social da mente. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

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