VOCÊ SABE O QUE É LETRANDO?
Este artigo analisa a diferença entre letrar, letramento e letrando, fundamentando-se em autores como Paulo Freire, Magda Soares, Emilia Ferreiro, Edgar Morin e Ailton Krenak, dentre outros. A reflexão amplia esses conceitos para além da alfabetização, abordando formação humana, responsabilidade social, compromisso ético e respeito à vida, com ações no presente para a construção de um futuro melhor.
Letrar, Letramento e Letrando: Três Dimensões da Formação Humana
Introdução
As discussões sobre alfabetização e cultura escrita no Brasil, especialmente a partir da segunda metade do século XX, exigem distinção conceitual rigorosa entre letrar, letramento e letrando. Esses termos não são sinônimos. Representam dimensões distintas, embora interdependentes, do processo formativo humano mediado pela linguagem.
Compreender tais distinções implica considerar contribuições da psicogênese da língua escrita, da pedagogia crítica e das abordagens socioculturais do letramento, bem como seus desdobramentos éticos, ambientais e civilizatórios.
1.Letrar:Ação Pedagógica de Inserção Crítica na Cultura Escrita
O verbo letrar refere-se à ação educativa que promove a inserção do sujeito na cultura escrita.
A partir dos estudos de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, compreende-se que a criança não aprende a escrever por simples memorização de letras e sílabas. Ela formula hipóteses, testa, reorganiza e reconstrói seu pensamento acerca do sistema de escrita. A alfabetização, portanto, configura-se como processo cognitivo ativo.
Paulo Freire amplia essa perspectiva ao afirmar que a leitura da palavra está indissociavelmente ligada à leitura do mundo. Letrar, nesse sentido, não significa apenas ensinar códigos gráficos, mas formar sujeitos capazes de interpretar criticamente a realidade.
Assim, letrar envolve construção cognitiva do sistema de escrita, mediação pedagógica intencional e formação inicial de consciência crítica.
2.Letramento:Condição Sociocultural da Escrita
O conceito de letramento consolida-se no Brasil a partir das contribuições de Magda Soares, que diferencia alfabetização, entendida como domínio do sistema de escrita, de letramento, compreendido como uso social significativo da leitura e da escrita.
O letramento desloca o foco da técnica para a prática social.
Ângela Kleiman ressalta que as práticas de leitura e escrita são culturalmente situadas e variam conforme os contextos sociais. Leda Verdiani Tfouni amplia essa compreensão ao destacar que o letramento não se restringe ao espaço escolar, mas integra a organização social da escrita na sociedade.
Brian Street denomina essa abordagem de modelo ideológico de letramento, reconhecendo que as práticas de leitura e escrita são atravessadas por relações de poder, valores culturais e condições históricas.
Desse modo, letramento refere-se à participação ativa na cultura escrita, à prática social contextualizada, ao fenômeno histórico e cultural e ao exercício da cidadania.
3.Letrando:Processo Permanente de Formação Humana
É nesse ponto que o conceito se amplia.
Se letrar é ação pedagógica e letramento é condição social, letrando constitui processo contínuo. Não representa etapa concluída, mas movimento permanente de formação.
Letrando significa permanecer em construção ao longo da vida, revendo práticas, ampliando compreensões e transformando atitudes.
A perspectiva freireana da educação como prática inacabada fundamenta essa compreensão. O ser humano é inacabado e, por isso, está permanentemente em processo de aprendizagem.
Moacir Gadotti amplia essa reflexão ao defender uma educação voltada para a sustentabilidade e para a cidadania planetária. Educar implica formar sujeitos conscientes de sua responsabilidade diante do planeta.
André Trigueiro ressalta que a informação somente se converte em transformação quando altera comportamentos cotidianos.
Ailton Krenak aprofunda essa dimensão ao afirmar que precisamos ensinar nossas crianças a reconhecer que não estão fora da natureza, mas são parte dela. A crise que enfrentamos é civilizatória e exige revisão de valores e modos de habitar o mundo.
Nesse horizonte formativo, Edgar Morin contribui ao propor Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, destacando que educar no século XXI implica enfrentar as incertezas, compreender a complexidade humana, desenvolver a compreensão mútua e sustentar uma ética do gênero humano. Nessa perspectiva, letrando também significa formar-se continuamente para ler o mundo em suas múltiplas dimensões, rever modos de pensar e agir e buscar alternativas responsáveis para a vida em sociedade e para o planeta.
Nessa mesma direção, Michèle Sato contribui para o campo da Educação Ambiental ao defender uma formação pautada na complexidade, na sensibilidade e na ética do cuidado. Educar ambientalmente não significa apenas transmitir conteúdos, mas promover mudança de percepção sobre nossa relação com o mundo, integrando razão, emoção e responsabilidade coletiva.
Nesse sentido, letrando ultrapassa a escrita e alcança consciência ética, responsabilidade ambiental, revisão crítica de práticas sociais, construção intergeracional do futuro e compromisso com o bem-estar comum.
Letrando implica reconhecer equívocos do passado, agir com responsabilidade no presente e projetar escolhas mais justas e sustentáveis para o futuro, sempre em favor da vida e do bem comum.
Considerações finais
A distinção entre letrar, letramento e letrando revela três dimensões complementares do processo formativo humano mediado pela linguagem. Letrar constitui ação pedagógica. Letramento configura condição sociocultural. Letrando representa formação permanente.
Como formação permanente, o letrando exige reflexão contínua, revisão de hábitos, transformação de comportamentos e busca constante de alternativas mais justas e sustentáveis. Não se trata apenas de dominar códigos ou participar de práticas sociais de leitura e escrita, mas de assumir uma postura ética diante da vida.
Letrando parte da compreensão de que as transformações começam no micro, dentro de cada um de nós, por meio de mudanças de atitudes concretas. É o fazer diário, consciente e responsável, que inspira e assume a responsabilidade individual, expandindo-se até o macro e alcançando a sociedade e o planeta.
Letrando é respeitar a todos, independentemente de Raça, Crença ou Orientação Sexual, não apenas por existirem leis que garantam direitos, mas porque o respeito é fundamento da Dignidade Humana.
Repito aqui o que já afirmei em meu Trabalho Final de Pós-Graduação na Universidade de Brasília – UnB: Somos Todos Diferentes: Diferentes Cores, Diferentes Sabores e Diferentes Saberes.
Letrando é reconhecer que essa diversidade não nos separa, mas nos enriquece, nos humaniza e nos fortalece como sociedade. É comprometer-se com respeito à vida de todos os seres vivos que habitam o Planeta Terra, às nossas matas e às nossas águas.
Letrando é agir diariamente com consciência, responsabilidade e amor por tudo, manifestado em nossas ações. O amor é o marco ético do letrando, pois orienta nossas escolhas, nossos comportamentos e nosso compromisso com a vida em sua totalidade.
A cada dia vivido, letramos um pouco mais no movimento constante do letrando que nos transforma.
Roseli M. Cuzzo Cury
Referências
FERREIRO, Emilia; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artmed, 1999.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 23. ed. São Paulo: Cortez, 1989.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
GADOTTI, Moacir. Educação para a sustentabilidade: uma contribuição à Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2008.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2000.
SATO, Michèle. Educação ambiental: pesquisa e desafios. Porto Alegre: Artmed, 2003.
SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 1998.
TRIGUEIRO, André. Mundo sustentável 2: novos rumos para um planeta em crise. São Paulo: Globo, 2012
